segunda-feira, 9 de junho de 2014

Homens estranhos na Floresta.



“Quando chegamos a casa não tivemos uma recepção calorosa, embora Johnny estivesse satisfeito com a chegada do meu pai – obviamente imaginava um belo presente –, mas foi frustrado quando viu que meu pai não lhe trouxera nada de interessante – uma simples adaga de prata, que parecia até mesmo um pouco velha.”
  “Luke Donavan se encontrava pálido, com certa inquietude, talvez estivesse com um pouco de desconforto em ter que ver a esposa de seu irmão. Eu não compreendia, não conseguia imaginar um motivo, porque minha mãe não gostava do irmão de seu marido? O que acontecera de tão grave?”
  “Eu apenas me sentei e fiquei recordando daquela cena estranha, daquele brilho ofuscante, daquele baú estranho. Assim finalizei minha noite e, me preparei para a chegada do dia, em pleno sol eu não poderia sair então eu precisava de alguma distração, e a melhor ideia que veio em minha mente, foi que, eu deveria observar cada passo de Luke Donavan, pois eu estava prestes a testemunhar algo impressionante, dos tempos de glórias das batalhas do meu pai.”
  “Luke Donavan passou o dia em um quarto, pude ver discretamente – escondido, para ser sincero – que ele observava papéis e tentava decifrar alguns textos escritos em uma língua estranha que se parecia com o latim, mas não se tratava do mesmo, sou um bom leitor e entendedor do latim, e não consegui traduzir sequer uma palavra. Os textos hieróglifos pra mim pareciam ser um mapa para meu tio, Luke Donavan, que depois de analisar cada papel começou a desenhar algo que provavelmente seria um. Passei a tarde toda assim. Eu estava escondido debaixo de um armário que ficava no mesmo quarto em que Luke Donavan estudava, e quando a noite chegou meu pai se juntou a ele.”
  “- Descobriu algo? – perguntou meu pai ao entrar no pequeno quarto.”
  “- Descobri – disse Luke Donavan ao mostrar o enorme desenho que estava fazendo em papéis grossos – posso lhe revelar os segredos mesmo na presença de seu filho?”
  “Mal pude acreditar que eu fora descoberto, sendo que me escondi tão bem.”
  “- Meu filho? – se espantou meu pai.”
  “- Sim, ele passou toda a tarde me observando debaixo do armário no canto esquerdo do quarto. – respondeu Luke Donavan.”
  “- Nem acredito! Só podia ser o Christopher! – disse ele, já sabendo que seria eu.”
  “Então eu saí debaixo do armário, provavelmente fiquei com uma expressão de espanto muito engraçada, já que arranquei gargalhadas de meu pai e de meu tio.”
  “- Realmente pensou que não seria descoberto? – perguntou meu pai olhando fixamente em meus olhos espantados.”
  “- Eu procurava minha adaga de prata – falei firmemente, olhando fixamente para os olhos do meu pai, sem gaguejar, para que não houvesse desconfiança –, pensei que talvez pudesse ter caído debaixo do armário, quando fui surpreendido com a chegada de Luke Donavan, aproveitei que já estava debaixo do armário e lá fiquei ele estava com uma expressão muito séria e eu não queria interrompê-lo.”
  “- Foi uma boa desculpa – disse meu pai percebendo minha mentira – agora se retire do quarto e diga à sua mãe que vou sair.”
  “- Como quiser, mas antes de ir não posso deixar de perguntar – disse eu, muito curioso –, para onde vocês vão?”
  “- Como eu disse da última vez, não é assunto de seu tempo, agora nos dê licença e diga para sua mãe que vou sair junto de meu irmão. – disse meu pai calmamente.”
  “Fiz o que meu pai me pediu, e resolvi ir olhar de longe para onde eles iam, meu pai não costumava sair assim, mas quando saia, ele não dispensava minha presença.”
  “- Meu pai está fazendo algo de muito errado, ou algo de muito certo, mas ele não quer nos contar. – disse eu ao me encontrar com Dave em um dos corredores da casa.”
  “- Talvez não seja nada demais – disse Dave sem olhar para mim –, ele acabou de se reencontrar com um irmão que não via há anos. Deve estar aproveitando o tempo com conversas inúteis sobre albatrozes.”
  “- Acho que não existe um livro hieróglifo que conte a história desses pássaros – disse eu. O que tanto procura no telhado? – continuei ao ver que Dave não me dava atenção, e só olhava para o telhado.”
  “- Eu estou procurando saber – disse Dave ainda olhando para o telhado – onde deixei meu livro sobre as plantas venenosas. Eu devo ter esquecido em algum lugar lá em cima.”
  “- Porque lia um livro no telhado? – perguntei sem entender.”
  “- Ora, essas vigas são enormes e bem largas – disse Dave finalmente fixando seu olhar em mim – não é nenhum incomodo se sentar nelas para ler um bom livro, e quem poderia me incomodar no telhado? É bom lugar para ficar sozinho.”
  “- Eu não tento mais entender suas ações Dave. – disse eu espantado com uma explicação tão estranha – Mas se tem algo que eu queira saber é o porquê você lê tantos livros sobre plantas, já aprendeu algo de importante? – perguntei.”
  “- Ah, claro que sim – disse Dave olhando novamente para o telhado – descobri que em mil oitocentos e setenta e nove um Pacífico, Aldrich Moriant, descobriu uma fórmula a base de Aloe Vera que podia impedir as queimaduras solares, ele fez vários testes e morreu queimado depois de alguns anos – enquanto fazia um teste –, mas eu fico a pensar, talvez se essa fórmula fosse melhorada, era bem possível que vampiros pudessem andar tranquilamente durante o dia.”
  “- Acho pouco provável – disse eu, contando que era completamente incrédulo da inteligência dos vampiros – já que nós vampiros, nascemos com certa dificuldade de entender as coisas, dizendo em palavras diretas e grosseiras, somos burros, meu caro amigo. – continuava falando enquanto caminhava lentamente até uma janela, quando olhei pelo vidro vi uma luz em meio das árvores brilhando fracamente há umas duas milhas de distância, logo sugeri que fosse meu pai, e seu irmão, ainda caminhando ao seu destino desconhecido por mim. Resolvi então, alertar ao Dave. – Veja! – disse eu apontando para a luz distante – Provavelmente seja meu pai, e seu irmão, é provável que possamos alcançá-los! – continuei.”
  “- É sim – disse Dave olhando para fora –, mas o que vai fazer pra sair daqui sozinho? – perguntou.”
  “- Não estou pensando em ir sozinho – disse eu olhando para o Dave – você poderia me acompanhar, quando voltarmos, subo nas vigas e te ajudo procurar seu livro estúpido!”
  “Dave era estranho, tinha atitudes estranhas, às vezes ele falava umas coisas tão fora de sentido que nem ele conseguia repetir, mas era facilmente persuadido.”
  “- Feito! – disse ele – Vamos agora mesmo, ou os perderemos!”
  “Então fomos até o arsenal dos fundos o mais depressa possível.”
  “- E devemos mesmo levar espadas? – perguntou Dave bem baixinho, como se alguém nos observasse.”
  “- Ora, não sabemos o que meu pai e seu irmão querem – disse eu pegando uma enorme espada de prata – é melhor irmos bem munidos contra qualquer contratempo.”
  “- Você sequer sabe usar uma espada? – perguntou Dave.”
  “- Não... – disse eu desanimado – Mas você sabe muito bem! – completei com animação retomada no semblante.”
  “Finalmente partimos, e tomamos caminho em meio às árvores. A luz que outrora brilhava fracamente, agora estava ainda mais fraca, e a cada minuto ela se distanciava ainda mais. Chamei Dave para corrermos, ou perderíamos toda a ação que eu cogitava que fosse acontecer. Enquanto percorríamos o caminho, Dave estava apreensivo, com os olhos bem arregalados e não tirava a espada das mãos. Eu estava bem alerta, olhando por todos os lados, e me assustava com todo animal que passava ao nosso lado, por menor que fosse. Eu estava com muito medo, mas o sentido de aventura me fazia prosseguir, penso que nem mesmo a mais assustadora das coisas poderia me parar naquele momento. E enfim, o primeiro ato aconteceu.”
  “- Veja! – exclamou Dave – a luz parou, não há mais ninguém em seu manuseio.”
  “- É uma tocha – disse eu – eles pararam ali, vamos nos apressar, não estamos muito longe.”
  “Os que manuseavam a tocha estavam parados, fazendo alguma coisa, e eu não demoraria a descobrir, eles estavam a uns mil passos dali, mas contando que corríamos tão depressa, talvez chegássemos a menos de dez minutos. Mas então, o segundo ato aconteceu.”
  “- A tocha se apagou! – exclamei com surpresa.”
  “- E agora? – perguntou Dave – O que devemos fazer?”
  “- Seguir em frente na escuridão, somos criaturas noturnas! – disse eu entusiasmado.”
  “Seguimos em frente, apenas com a iluminação do luar, que não estava muito boa, contando que havia começado uma fraca neblina que mais tarde poderia se tornar intensa. Enquanto fazíamos o caminho – dessa vez lentamente devido a falta de orientação – ouvimos passos em meio à mata.”
  “- Eles estão aqui. – disse eu, quase em cochicho – não devemos deixar que nos descubram nossa presença.”
  “- Aposto que já descobriram – disse Dave em sussurros – por isso apagaram a tocha.”
  “- Por aqui – disse eu, no mesmo momento que corri e me escondi atrás de uma grande árvore – abaixe-se! – exclamei em sussurros.”
  “Dave seguiu minhas instruções, e ficamos bem quietos, quase imóveis. O som da noite já assombrava a floresta, já se podia ouvir o chocalho da cascavel, o som repentino de asas – provavelmente de morcegos –, e como se já não estivesse difícil enxergar algo, a neblina aumentara, mas foi claro como a luz do maléfico sol, que vi um homem – se é que era mesmo um homem – enorme, provavelmente uns três metros de altura – sem sapatos –, à noite e a neblina me impediam de ver perfeitamente, mas pude perceber que o homem enorme, tinha também uma barba proporcional ao seu tamanho, e estava munido de um enorme porrete rodeado de espinhos – provavelmente de prata –, roupas de couro, típicas de um guerreiro.”
  “Dave empunhou sua espada, depois de feito, voltou a ficar imóvel. Eu apenas observei o enorme homem com tanto espanto e admiração ao mesmo tempo, que quase criei uma nova filosofia. O medo se apossou de mim quando vi que aquele homem enorme e armado havia parado de andar, bem na nossa frente, por sorte estava de costa, mas qualquer barulho suspeito podia fazer com que ele virasse, e se as suas intenções não fossem boas, provavelmente morreríamos, afinal, o que um homem tão enorme faria armado em uma floresta?”
  “Já estava algo estranho e absurdo, meu pai sai com seu irmão, Luke Donavan, para um lugar desconhecido, do qual preferem esconder, homem estranho e enorme bem no meio da floresta, não eram coisas que aconteciam sempre, mas o pior ainda estava por vir, outro homem – bem menor que o gigante parado em nossa frente – surgiu em meio às árvores.”
  “- Seu tolo – exclamou em sussurros o homem que surgira – você os perdeu! – provavelmente não queria ser descoberto, contando que continuava a sussurrar.”
  “O homem enorme se virou, e foi como se ele não tivesse nos visto, mas estávamos bem na frente dele, como pode não ter nos visto? Seria ele cego? E mudo? Já que não respondia o outro homem que parecia mais ser seu dono.”
  “- Espero que não tenha perdido o rastro – disse o homem menor, dessa vez em voz mais alta, eles estavam bem atrás da árvore em que estávamos escondidos – tudo ficou mais complicado depois que ouviram o barulho escandaloso de seus enormes pés! Se não fosse por você, eles não teriam apagado a tocha e teríamos uma excelente orientação. – completou.”
  “O homem continuava a falar, e o gigante mudo. Dave me fitou nos olhos e pude perceber suas intenções, ele queria sair dali, e já que o homem menor estava ocupado demais falando, e o gigante não havia nos percebido, pensamos que seria fácil sair dali. Eu fui o primeiro a levantar, e comecei a caminhar lentamente, Dave se levantou calmamente e veio ao meu encontro, e quando, finalmente, começamos a caminhar juntos, Dave tropeçou em uma raiz e, desequilibrado, deixou sua espada cair sobre uma pedra, o barulho foi alto, já que a floresta estava tão silenciosa. Corremos para trás de outra árvore e lá ficamos.”
  “- Mas o que foi isso? – disse o homem menor, pelo menos era o que indicava o timbre da voz, voz que eu já havia decorado.”
  “Pensamos em correr, mas no mesmo quarto de segundos, o gigante arrancou com uma extrema facilidade a árvore que nos guardava. Eu corri para um lado, Dave para outro, e isso foi o pior que fizemos, tínhamos que ficar juntos, mas fomos a direções distintas, meu desespero veio quando olhei para trás e vi, o gigante estava me seguindo. Ele era lento, mas era tão enorme que um passo dele era o mesmo que cinco, talvez dez, dos meus, fazia um estrondo sempre que apoiava um pé sobre o chão, enquanto eu desviava das árvores que me atrapalhavam, ele arrancava, com facilidade, as que surgiam em seu caminho.”
  “Eu ainda não havia reconhecido em qual direção estava correndo, mas percebi que a mata fechada estava acabando, já que as árvores estavam cada vez menor, mas mudar de direção me faria perder muito tempo, e o gigante estava bufando na minha nuca de tão perto que estava. Cheguei, enfim, a uma área, que tinha uma grama rasteira, olhei para trás e não vi o gigante, mas antes que pudesse começar a me aliviar, ele surgiu, jogando árvores para cima, e eu continuei a correr, logo a frente encontraria um riacho de águas puras, a plantação mais baixa e o solo um pouco mais úmido me denunciaram isso. O riacho poderia ser minha salvação, na água, o gigante seria muito mais lento, e seu tamanho só lhe atrapalharia, mas antes que eu pudesse chegar ao riacho, olhei mais uma vez para trás, e vi que o gigante dera um salto em minha direção, ele mirou bem sua arma em mim, e me acertaria em questão de segundos, se não fosse por alguém ter-me desviado do monstro.”
  “- O que faz aqui? – gritou uma voz familiar.”

domingo, 25 de maio de 2014

O Sr. Luke Donavan.



O MISTERIOSO LIVRO DE FEITIÇOS DE JAMES BLACKMONT
PARTE 1 – A ERA DE OURO
1 – AS PALAVRAS DE CHRISTOPHER DONAVAN
  “Já era quase noite e, me preparava para sair junto de meu pai – um homenzarrão de quase uns dois metros, moreno, muito forte e cheio de cicatrizes pelo corpo, sua pele era áspera, sua mão calejada e seus cabelos escuros eram um pouco crespos – ele era um grande ferreiro e, com frequência precisava sair para tratar de seus negócios, e eu sempre o acompanhava.”
  “Eu morava numa floresta, a mais escura que se possa encontrar em toda Inglaterra, junto com meus pais e irmãos. Meu pai levava uma vida sossegada, nem parecia mais o mesmo vampiro que as histórias diziam. Quando mais jovem, ele foi um poderoso guerreiro que foi muito bem utilizado no exercito do Conselho Mundial de Ordem, ele foi um grande guardião das chaves da prisão mais segura de todo o Mundo Vampiro, mas tudo mudou quando ele foi mandado em missão para o sul da Inglaterra. Um grupo de assassinos desordeiros dominava uma aldeia pacífica e menor de vampiros. Meu pai liderou um grupo de soldados especiais que trucidaram a trupe de desordeiros. Ele livrou a aldeia e, conquistou uma jovem, esta era Lindsay Bale Grant, filha de vampiros pacíficos.”
  “Edward Donavan, meu pai, logo se apaixonou pela bela moça, mas como ela veio de uma família pacífica, jamais teria permissão para relacionar-se com um oficial de guerra. Sendo assim, meu pai cumpriu todas as ordens dadas a ele por Harold Carter, o líder supremo do Mundo Vampiro, e abandonou o exercito. Tendo feito isso, o resto foi questão de tempo, logo eles se casaram, se mudaram para a floresta escura onde meu pai havia recebido uma herança, que se tratava de um casarão isolado, que ficava a umas quatro milhas de uma pequena vila de vampiros pacíficos.”
   “Pouco depois do meu nascimento, meus pais acolheram um garoto estranho em nossa casa, um menino que aparentava ter, talvez, uns dez ou doze anos, mas que não sabia dizer sequer uma palavra, não se alimentava sozinho e, tinha expressões espantosas. Ele foi chamado de Dave, mas não foi-lhe acrescentado nem mesmo um sobrenome. Dave foi encontrado ao lado dos corpos de dois suspeitos de um crime, esses eram Andrew e Victoria Howard, procurados pelos mais experientes soldados do Conselho Mundial de Ordem por serem suspeitos de terem libertado dois criminosos perigosos. Depois desse episódio, meus pais ainda tiveram mais um filho de sangue, esse foi Johnny Grant Donavan, o mais novo de nós.”
 
“Eu estava finalmente pronto para a partida, meu pai me aguardava impacientemente nos fundos da casa – onde ficavam guardadas as espadas – creio eu, que minha demora havia lhe irritado. Eu estava já com os meus quinze anos e, o que fazia de mais interessante eram essas andanças com meu pai”.
  “Era um vinte e três de setembro de mil novecentos e oitenta e nove, para muitos, um dia comum, para Johnny, representava a chegada de seus onze anos, e como já disse, meu pai estava de partida e, como de costume o acompanhei. No caminho de ida, nada de diferente. Quando voltávamos, ele parou num lugar estranho, escuro, e lá estava uma velha cabana de madeira já bem gasta, no meio de um pântano bastante lamacento e rodeada por árvores rasteiras. Meu pai, não falara sequer uma palavra, não respondera sequer uma pergunta durante o caminho em meio às poças lamacentas. Mas quando chegamos, ele bateu na velha porta de madeira e gritou em voz alta. Momentos depois pôde-se ouvir passos dentro da velha cabaninha, um barulho de madeira rangendo que continuou até que a porta foi aberta. De lá, saiu um homem alto, forte, cabelos e barbas rasteiras e grisalhas, um olhar assustador, ameaçador, parecia estar zangado com algo, e assim permaneceu até que viu o rosto de meu pai. Depois disso, o enorme homem abriu um sorriso.”
  “- Meu caro irmão – disse o homem ao estender a mão em cumprimento – que honra ter a sua visita!”
  “- Também me sinto honrado em vê-lo, caro irmão – disse meu pai respondendo ao cumprimento com um aperto de mão – acredito que esteja bem, nunca mais me procurou.”
  “- Ah sim, para quem considera bom passar onze anos em um pântano. – disse o homem com certo tom irônico e uma expressão de descontentamento.”
  “- Te dei chances para morar comigo, desperdiçou todas! – disse meu pai com olhos fixos no homem.”
  “- Pois bem, falemos disso noutra ocasião – disse o homem com os olhos fixos em mim – Vejo que trouxe o Dave consigo.”
  “- Ah, mas que indelicadeza essa minha – então meu pai me puxou pelo braço e continuou – Esse é Christopher Donavan, Dave está muito mais forte que isso.”
  “Então o homem me olhou de cima em baixo e tirou suas conclusões sobre mim, mas deixou-as guardadas para si.”
  “- Jovem rapaz! – disse-me e estendeu a mão – Eu sou Luke Donavan, irmão mais velho de seu pai.”
  “O estranho homem tinha realmente certa semelhança com meu pai, eu nem precisava ter desconfianças. A mesma rudez na voz, a mesma mania de piscar o olho esquerdo sempre que termina de falar algo, eram irmãos, ligados por um forte laço, isso era perceptível por causa do jeito que falavam um com o outro, mas meu pai sequer falara dele em casa, eu mesmo, nem sabia de sua existência. Pelo visto, não pareciam ter alguma diferença muito grave que os afastaram.”
  “- É um prazer conhecer um familiar tão próximo. – falei ao responder ao cumprimento do meu tio que acabara de conhecer.”
  “- Um pouco frio, sem muitos sentimentos. Vejo que herdou isso do pai – disse meu tio ao dar um abraço em meu pai – esse seu pai passa onze anos sem ver um irmão, e quando eles se reencontram ele não lhe dá nem um abraço.”
  “Meu pai respondeu ao abraço e finalmente fomos convidados a entrar na cabaninha de madeira gasta, eles se sentaram numa grande pedra lisa que ficava no meio da cabana, eu apenas fiquei de olho em tudo, observando da porta em que me escorei. Ficaram lá durante horas, nunca pude imaginar que fossem demorar tanto conversando sobre coisas completamente inúteis.”
  “Enquanto falavam tanto, eu ficava a observar todo o casebre, era pobre, muito simples, quase não tinha móveis e tinha um terrível cheiro de podre, talvez fosse pelas doninhas mortas no canto da sala – se bem que nem sabia se era mesmo uma sala, os móveis eram tão poucos que nem dava para diferenciar os cômodos do casebre – ou então algo ainda pior e mais fedorento que estava trancafiado em baixo de um alçapão.”
  “Meu pai e seu irmão ainda falavam. Falaram sobre plantas e diferentes tipos de pássaros, falaram também de feitiçaria e alquimia, reclamaram do Conselho Mundial de Ordem, falaram do passado, falaram de outras coisas que nem me lembro, e tornaram a reclamar do Conselho. Quando finalmente se levantaram, eles continuaram a falar, como se o assunto jamais fosse ter fim, tenho pena de quem tentasse interrompê-los, eu mesmo não arrisquei, mas pelo menos estávamos indo embora, era notável que sim.”
  “- Muito bem, lembro-me que gostava muito dos albatrozes. – disse Luke Donavan.”
  “- Ah, e sua memória não falha, ainda me vejo fascinado, aquelas belas aves do Pacífico Norte sabem me encantar. – disse meu pai, olhou seu relógio de bolso e continuou – albatrozes tomam meu tempo, nem percebi que a madrugada já está quase derrubando a noite, e já com hora avançada eu receio que tenha que ir.”
  “- É uma pena, o tempo pode, às vezes, ser um aliado, mas o problema é que ele nunca para! – disse Luke Donavan.”
  “- Mas não precisa se lamentar. Você virá comigo. – disse meu pai sério.”
  “- Você sabe que Lindsay nunca gostou de mim, meu caro irmão e, talvez eu tenha que arrumar umas coisas, talvez eu receba mais visitas... – disse Luke Donavan, andando de costa, meio atrapalhado.”
  “- Sei bem – meu pai falava e caminhava lentamente até a porta – mas Lindsay não se importará, e tenho certeza que não espera uma visita, não via um rosto conhecido há onze anos, sei que estou certo disso – disse meu pai entregando uns papéis rabiscados ao seu irmão – hoje temos algo a fazer, posso garantir que já descobriu do que estou falando, e sabe que precisamos da sua ajuda.”
  “Seria um tipo de código entre irmãos? Do que estariam falando? Eu apenas acompanhei o assunto e fui tirando minhas conclusões.”
  “- Por Carter! Esse mundo vai de mal a pior! – disse Luke Donavan com um olhar espantado – Mas nem tudo está perdido, eu juro que a protegi bem – acrescentou olhando para a grande pedra lisa do centro do casebre – Ninguém se atreveria a passar por um de meus portais! Quem lhe deu isso? – perguntou.”
  “- Creio que ficou impressionado, – disse meu pai entregando ainda mais folhas ao seu irmão – espero que tenha se impressionado, espero mesmo! Ganhei de um estranho que usava um capuz negro, ele disse que o Mundo Vampiro corria perigo. Luke, meu irmão, se você não souber traduzir pode ser tarde. – completou.”
  “Tendo dito isso, meu pai andou de volta em direção da grande pedra lisa e depois voltou a falar. – Deveríamos levar esse artefato que você protege para longe daqui! – disse meu pai.”
  “- Talvez não, – disse Luke Donavan ao pegar e analisar o papel com rabiscos estranhos – meu caro irmão, apenas você e agora o jovem Christopher que sabem onde me habito. Aqui é tão seguro quanto o Conselho Mundial de Ordem, é um lugar no meio do nada! Não vou tirar nada daqui! – continuou se alterando de calmo para nervoso.”
  “- Não se exalte, tenho certeza de que você será encontrado. O Conselho tem seu registro, você ainda é um oficial, eles estão vendo cada um de seus movimentos, provavelmente sabem onde se esconde, e sempre há um corrupto entre eles, isso posso lhe afirmar! Sempre há! – disse meu pai finalmente saindo da cabana e me puxando pelo braço.”
  “- Eu não concordo muito com suas idéias, pra ser mais justo, nunca concordei, mas às vezes preciso te deixar agir e ver onde vai dar. Espero que saiba o que está fazendo meu irmão. – disse Luke Donavan ao ir pro meio da sua cabana e arrastar a grande pedra lisa. A pedra cobria o que seria uma espécie de portal fixo ao chão, Luke Donavan se ajoelhou, passaram primeiras as suas mãos no meio do portal, na mesma hora, uma luz brilhante reluziu sobre meus olhos ofuscando minha visão. Quando pude voltar a ver, Luke Donavan já estava empurrando a pedra de volta ao seu lugar, em seguida pegou um pequeno baú de prata, com desenhos estranhos. Este foi o primeiro baú sem fechadura que já vi em toda minha vida, era visivelmente impossível de se abrir. O seu conteúdo, com certeza era algo de grande importância.”
  “- Do que vocês tanto falam? – quebrei meu silêncio com essa pergunta.”
  “- Não é assunto da sua época – riu meu pai – não precisa se preocupar, não vai lhe afetar.”
  “- Talvez ele precisasse de uma resposta um pouco mais direta e objetiva. – disse Luke Donavan.”
  “- Mas você não conhece esse garoto, quando resolve fazer perguntas, não costuma parar. – disse meu pai olhando fixamente para mim.”
  “Então Luke Donavan pegou três enormes correntes de prata, e mais três enormes cadeados e disse, – Pois bem, espero que da próxima deixe o garoto em casa já que não vai dizer nada a ele. Agora é melhor irmos, está ficando meio tarde, Lindsay vai ficar uma fera com você.”
  “Fiquei com os olhos fixos no pântano escuro em que me encontrava, enquanto o anfitrião trancava sua moradia, depois de feito, tomamos o caminho de volta para casa em meio às poças lamacentas, e enquanto o fazíamos não houve um assunto interessante o suficiente para que eu me lembre. O que houve de diferente foram as nuvens que se escureceram avisando que logo a chuva viria então nos apressamos para chegarmos ao nosso destino antes que ela caísse.”