“Quando chegamos a
casa não tivemos uma recepção calorosa, embora Johnny estivesse satisfeito com
a chegada do meu pai – obviamente imaginava um belo presente –, mas foi
frustrado quando viu que meu pai não lhe trouxera nada de interessante – uma
simples adaga de prata, que parecia até mesmo um pouco velha.”
“Luke Donavan se encontrava pálido, com certa
inquietude, talvez estivesse com um pouco de desconforto em ter que ver a
esposa de seu irmão. Eu não compreendia, não conseguia imaginar um motivo,
porque minha mãe não gostava do irmão de seu marido? O que acontecera de tão
grave?”
“Eu apenas me sentei e fiquei recordando
daquela cena estranha, daquele brilho ofuscante, daquele baú estranho. Assim
finalizei minha noite e, me preparei para a chegada do dia, em pleno sol eu não
poderia sair então eu precisava de alguma distração, e a melhor ideia que veio
em minha mente, foi que, eu deveria observar cada passo de Luke Donavan, pois
eu estava prestes a testemunhar algo impressionante, dos tempos de glórias das
batalhas do meu pai.”
“Luke Donavan passou o dia em um quarto, pude
ver discretamente – escondido, para ser sincero – que ele observava papéis e
tentava decifrar alguns textos escritos em uma língua estranha que se parecia
com o latim, mas não se tratava do mesmo, sou um bom leitor e entendedor do
latim, e não consegui traduzir sequer uma palavra. Os textos hieróglifos pra
mim pareciam ser um mapa para meu tio, Luke Donavan, que depois de analisar
cada papel começou a desenhar algo que provavelmente seria um. Passei a tarde
toda assim. Eu estava escondido debaixo de um armário que ficava no mesmo
quarto em que Luke Donavan estudava, e quando a noite chegou meu pai se juntou
a ele.”
“- Descobriu algo? – perguntou meu pai ao
entrar no pequeno quarto.”
“- Descobri – disse Luke Donavan ao mostrar o
enorme desenho que estava fazendo em papéis grossos – posso lhe revelar os
segredos mesmo na presença de seu filho?”
“Mal pude acreditar que eu fora descoberto,
sendo que me escondi tão bem.”
“- Meu filho? – se espantou meu pai.”
“- Sim, ele passou toda a tarde me observando
debaixo do armário no canto esquerdo do quarto. – respondeu Luke Donavan.”
“- Nem acredito! Só podia ser o Christopher!
– disse ele, já sabendo que seria eu.”
“Então eu saí debaixo do armário,
provavelmente fiquei com uma expressão de espanto muito engraçada, já que
arranquei gargalhadas de meu pai e de meu tio.”
“- Realmente pensou que não seria descoberto?
– perguntou meu pai olhando fixamente em meus olhos espantados.”
“- Eu procurava minha adaga de prata – falei
firmemente, olhando fixamente para os olhos do meu pai, sem gaguejar, para que
não houvesse desconfiança –, pensei que talvez pudesse ter caído debaixo do
armário, quando fui surpreendido com a chegada de Luke Donavan, aproveitei que
já estava debaixo do armário e lá fiquei ele estava com uma expressão muito
séria e eu não queria interrompê-lo.”
“- Foi uma boa desculpa – disse meu pai
percebendo minha mentira – agora se retire do quarto e diga à sua mãe que vou
sair.”
“- Como quiser, mas antes de ir não posso
deixar de perguntar – disse eu, muito curioso –, para onde vocês vão?”
“- Como eu disse da última vez, não é assunto
de seu tempo, agora nos dê licença e diga para sua mãe que vou sair junto de
meu irmão. – disse meu pai calmamente.”
“Fiz o que meu pai me pediu, e resolvi ir
olhar de longe para onde eles iam, meu pai não costumava sair assim, mas quando
saia, ele não dispensava minha presença.”
“- Meu pai está fazendo algo de muito errado,
ou algo de muito certo, mas ele não quer nos contar. – disse eu ao me encontrar
com Dave em um dos corredores da casa.”
“- Talvez não seja nada demais – disse Dave
sem olhar para mim –, ele acabou de se reencontrar com um irmão que não via há
anos. Deve estar aproveitando o tempo com conversas inúteis sobre albatrozes.”
“- Acho que não existe um livro hieróglifo
que conte a história desses pássaros – disse eu. O que tanto procura no
telhado? – continuei ao ver que Dave não me dava atenção, e só olhava para o
telhado.”
“- Eu estou procurando saber – disse Dave
ainda olhando para o telhado – onde deixei meu livro sobre as plantas
venenosas. Eu devo ter esquecido em algum lugar lá em cima.”
“- Porque lia um livro no telhado? –
perguntei sem entender.”
“- Ora, essas vigas são enormes e bem largas
– disse Dave finalmente fixando seu olhar em mim – não é nenhum incomodo se
sentar nelas para ler um bom livro, e quem poderia me incomodar no telhado? É
bom lugar para ficar sozinho.”
“- Eu não tento mais entender suas ações
Dave. – disse eu espantado com uma explicação tão estranha – Mas se tem algo
que eu queira saber é o porquê você lê tantos livros sobre plantas, já aprendeu
algo de importante? – perguntei.”
“- Ah, claro que sim – disse Dave olhando
novamente para o telhado – descobri que em mil oitocentos e setenta e nove um
Pacífico, Aldrich Moriant, descobriu uma fórmula a base de Aloe Vera que podia
impedir as queimaduras solares, ele fez vários testes e morreu queimado depois
de alguns anos – enquanto fazia um teste –, mas eu fico a pensar, talvez se
essa fórmula fosse melhorada, era bem possível que vampiros pudessem andar
tranquilamente durante o dia.”
“- Acho pouco provável – disse eu, contando
que era completamente incrédulo da inteligência dos vampiros – já que nós
vampiros, nascemos com certa dificuldade de entender as coisas, dizendo em
palavras diretas e grosseiras, somos burros, meu caro amigo. – continuava
falando enquanto caminhava lentamente até uma janela, quando olhei pelo vidro
vi uma luz em meio das árvores brilhando fracamente há umas duas milhas de
distância, logo sugeri que fosse meu pai, e seu irmão, ainda caminhando ao seu
destino desconhecido por mim. Resolvi então, alertar ao Dave. – Veja! – disse
eu apontando para a luz distante – Provavelmente seja meu pai, e seu irmão, é
provável que possamos alcançá-los! – continuei.”
“- É sim – disse Dave olhando para fora –,
mas o que vai fazer pra sair daqui sozinho? – perguntou.”
“- Não estou pensando em ir sozinho – disse
eu olhando para o Dave – você poderia me acompanhar, quando voltarmos, subo nas
vigas e te ajudo procurar seu livro estúpido!”
“Dave era estranho, tinha atitudes estranhas,
às vezes ele falava umas coisas tão fora de sentido que nem ele conseguia
repetir, mas era facilmente persuadido.”
“- Feito! – disse ele – Vamos agora mesmo, ou
os perderemos!”
“Então fomos até o arsenal dos fundos o mais
depressa possível.”
“- E devemos mesmo levar espadas? – perguntou
Dave bem baixinho, como se alguém nos observasse.”
“- Ora, não sabemos o que meu pai e seu irmão
querem – disse eu pegando uma enorme espada de prata – é melhor irmos bem
munidos contra qualquer contratempo.”
“- Você sequer sabe usar uma espada? –
perguntou Dave.”
“- Não... – disse eu desanimado – Mas você
sabe muito bem! – completei com animação retomada no semblante.”
“Finalmente partimos, e tomamos caminho em
meio às árvores. A luz que outrora brilhava fracamente, agora estava ainda mais
fraca, e a cada minuto ela se distanciava ainda mais. Chamei Dave para corrermos,
ou perderíamos toda a ação que eu cogitava que fosse acontecer. Enquanto
percorríamos o caminho, Dave estava apreensivo, com os olhos bem arregalados e
não tirava a espada das mãos. Eu estava bem alerta, olhando por todos os lados,
e me assustava com todo animal que passava ao nosso lado, por menor que fosse.
Eu estava com muito medo, mas o sentido de aventura me fazia prosseguir, penso
que nem mesmo a mais assustadora das coisas poderia me parar naquele momento. E
enfim, o primeiro ato aconteceu.”
“- Veja! – exclamou Dave – a luz parou, não
há mais ninguém em seu manuseio.”
“- É uma tocha – disse eu – eles pararam ali,
vamos nos apressar, não estamos muito longe.”
“Os que manuseavam a tocha estavam parados,
fazendo alguma coisa, e eu não demoraria a descobrir, eles estavam a uns mil
passos dali, mas contando que corríamos tão depressa, talvez chegássemos a
menos de dez minutos. Mas então, o segundo ato aconteceu.”
“- A tocha se apagou! – exclamei com
surpresa.”
“- E agora? – perguntou Dave – O que devemos
fazer?”
“- Seguir em frente na escuridão, somos
criaturas noturnas! – disse eu entusiasmado.”
“Seguimos em frente, apenas com a iluminação
do luar, que não estava muito boa, contando que havia começado uma fraca
neblina que mais tarde poderia se tornar intensa. Enquanto fazíamos o caminho –
dessa vez lentamente devido a falta de orientação – ouvimos passos em meio à
mata.”
“- Eles estão aqui. – disse eu, quase em
cochicho – não devemos deixar que nos descubram nossa presença.”
“- Aposto que já descobriram – disse Dave em
sussurros – por isso apagaram a tocha.”
“- Por aqui – disse eu, no mesmo momento que
corri e me escondi atrás de uma grande árvore – abaixe-se! – exclamei em
sussurros.”
“Dave seguiu minhas instruções, e ficamos bem
quietos, quase imóveis. O som da noite já assombrava a floresta, já se podia
ouvir o chocalho da cascavel, o som repentino de asas – provavelmente de
morcegos –, e como se já não estivesse difícil enxergar algo, a neblina
aumentara, mas foi claro como a luz do maléfico sol, que vi um homem – se é que
era mesmo um homem – enorme, provavelmente uns três metros de altura – sem
sapatos –, à noite e a neblina me impediam de ver perfeitamente, mas pude
perceber que o homem enorme, tinha também uma barba proporcional ao seu
tamanho, e estava munido de um enorme porrete rodeado de espinhos –
provavelmente de prata –, roupas de couro, típicas de um guerreiro.”
“Dave empunhou sua espada, depois de feito,
voltou a ficar imóvel. Eu apenas observei o enorme homem com tanto espanto e admiração
ao mesmo tempo, que quase criei uma nova filosofia. O medo se apossou de mim
quando vi que aquele homem enorme e armado havia parado de andar, bem na nossa
frente, por sorte estava de costa, mas qualquer barulho suspeito podia fazer
com que ele virasse, e se as suas intenções não fossem boas, provavelmente
morreríamos, afinal, o que um homem tão enorme faria armado em uma floresta?”
“Já estava algo estranho e absurdo, meu pai
sai com seu irmão, Luke Donavan, para um lugar desconhecido, do qual preferem
esconder, homem estranho e enorme bem no meio da floresta, não eram coisas que
aconteciam sempre, mas o pior ainda estava por vir, outro homem – bem menor que
o gigante parado em nossa frente – surgiu em meio às árvores.”
“- Seu tolo – exclamou em sussurros o homem
que surgira – você os perdeu! – provavelmente não queria ser descoberto, contando
que continuava a sussurrar.”
“O homem enorme se virou, e foi como se ele
não tivesse nos visto, mas estávamos bem na frente dele, como pode não ter nos
visto? Seria ele cego? E mudo? Já que não respondia o outro homem que parecia
mais ser seu dono.”
“- Espero que não tenha perdido o rastro –
disse o homem menor, dessa vez em voz mais alta, eles estavam bem atrás da
árvore em que estávamos escondidos – tudo ficou mais complicado depois que
ouviram o barulho escandaloso de seus enormes pés! Se não fosse por você, eles
não teriam apagado a tocha e teríamos uma excelente orientação. – completou.”
“O homem continuava a falar, e o gigante mudo.
Dave me fitou nos olhos e pude perceber suas intenções, ele queria sair dali, e
já que o homem menor estava ocupado demais falando, e o gigante não havia nos
percebido, pensamos que seria fácil sair dali. Eu fui o primeiro a levantar, e
comecei a caminhar lentamente, Dave se levantou calmamente e veio ao meu
encontro, e quando, finalmente, começamos a caminhar juntos, Dave tropeçou em
uma raiz e, desequilibrado, deixou sua espada cair sobre uma pedra, o barulho
foi alto, já que a floresta estava tão silenciosa. Corremos para trás de outra
árvore e lá ficamos.”
“- Mas o que foi isso? – disse o homem menor,
pelo menos era o que indicava o timbre da voz, voz que eu já havia decorado.”
“Pensamos em correr, mas no mesmo quarto de
segundos, o gigante arrancou com uma extrema facilidade a árvore que nos
guardava. Eu corri para um lado, Dave para outro, e isso foi o pior que
fizemos, tínhamos que ficar juntos, mas fomos a direções distintas, meu
desespero veio quando olhei para trás e vi, o gigante estava me seguindo. Ele
era lento, mas era tão enorme que um passo dele era o mesmo que cinco, talvez
dez, dos meus, fazia um estrondo sempre que apoiava um pé sobre o chão,
enquanto eu desviava das árvores que me atrapalhavam, ele arrancava, com
facilidade, as que surgiam em seu caminho.”
“Eu ainda não havia reconhecido em qual
direção estava correndo, mas percebi que a mata fechada estava acabando, já que
as árvores estavam cada vez menor, mas mudar de direção me faria perder muito
tempo, e o gigante estava bufando na minha nuca de tão perto que estava.
Cheguei, enfim, a uma área, que tinha uma grama rasteira, olhei para trás e não
vi o gigante, mas antes que pudesse começar a me aliviar, ele surgiu, jogando
árvores para cima, e eu continuei a correr, logo a frente encontraria um riacho
de águas puras, a plantação mais baixa e o solo um pouco mais úmido me
denunciaram isso. O riacho poderia ser minha salvação, na água, o gigante seria
muito mais lento, e seu tamanho só lhe atrapalharia, mas antes que eu pudesse
chegar ao riacho, olhei mais uma vez para trás, e vi que o gigante dera um
salto em minha direção, ele mirou bem sua arma em mim, e me acertaria em
questão de segundos, se não fosse por alguém ter-me desviado do monstro.”
“- O que faz aqui? – gritou uma voz familiar.”