O MISTERIOSO LIVRO DE
FEITIÇOS DE JAMES BLACKMONT
PARTE 1 – A ERA DE OURO
1 – AS PALAVRAS DE CHRISTOPHER DONAVAN
“Já era quase noite e, me preparava para sair
junto de meu pai – um homenzarrão de quase uns dois metros, moreno, muito forte
e cheio de cicatrizes pelo corpo, sua pele era áspera, sua mão calejada e seus
cabelos escuros eram um pouco crespos – ele era um grande ferreiro e, com
frequência precisava sair para tratar de seus negócios, e eu sempre o
acompanhava.”
“Eu morava numa floresta, a mais escura que
se possa encontrar em toda Inglaterra, junto com meus pais e irmãos. Meu pai
levava uma vida sossegada, nem parecia mais o mesmo vampiro que as histórias
diziam. Quando mais jovem, ele foi um poderoso guerreiro que foi muito bem
utilizado no exercito do Conselho Mundial de Ordem, ele foi um grande guardião
das chaves da prisão mais segura de todo o Mundo Vampiro, mas tudo mudou quando
ele foi mandado em missão para o sul da Inglaterra. Um grupo de assassinos
desordeiros dominava uma aldeia pacífica e menor de vampiros. Meu pai liderou
um grupo de soldados especiais que trucidaram a trupe de desordeiros. Ele
livrou a aldeia e, conquistou uma jovem, esta era Lindsay Bale Grant, filha de
vampiros pacíficos.”
“Edward Donavan, meu pai, logo se apaixonou
pela bela moça, mas como ela veio de uma família pacífica, jamais teria
permissão para relacionar-se com um oficial de guerra. Sendo assim, meu pai
cumpriu todas as ordens dadas a ele por Harold Carter, o líder supremo do Mundo
Vampiro, e abandonou o exercito. Tendo feito isso, o resto foi questão de
tempo, logo eles se casaram, se mudaram para a floresta escura onde meu pai
havia recebido uma herança, que se tratava de um casarão isolado, que ficava a
umas quatro milhas de uma pequena vila de vampiros pacíficos.”
“Pouco
depois do meu nascimento, meus pais acolheram um garoto estranho em nossa casa,
um menino que aparentava ter, talvez, uns dez ou doze anos, mas que não sabia
dizer sequer uma palavra, não se alimentava sozinho e, tinha expressões
espantosas. Ele foi chamado de Dave, mas não foi-lhe acrescentado nem mesmo um
sobrenome. Dave foi encontrado ao lado dos corpos de dois suspeitos de um
crime, esses eram Andrew e Victoria Howard, procurados pelos mais experientes
soldados do Conselho Mundial de Ordem por serem suspeitos de terem libertado
dois criminosos perigosos. Depois desse episódio, meus pais ainda tiveram mais
um filho de sangue, esse foi Johnny Grant Donavan, o mais novo de nós.”
“Eu estava finalmente
pronto para a partida, meu pai me aguardava impacientemente nos fundos da casa
– onde ficavam guardadas as espadas – creio eu, que minha demora havia lhe
irritado. Eu estava já com os meus quinze anos e, o que fazia de mais
interessante eram essas andanças com meu pai”.
“Era um vinte e três de setembro de mil
novecentos e oitenta e nove, para muitos, um dia comum, para Johnny,
representava a chegada de seus onze anos, e como já disse, meu pai estava de
partida e, como de costume o acompanhei. No caminho de ida, nada de diferente. Quando
voltávamos, ele parou num lugar estranho, escuro, e lá estava uma velha cabana
de madeira já bem gasta, no meio de um pântano bastante lamacento e rodeada por
árvores rasteiras. Meu pai, não falara sequer uma palavra, não respondera
sequer uma pergunta durante o caminho em meio às poças lamacentas. Mas quando
chegamos, ele bateu na velha porta de madeira e gritou em voz alta. Momentos
depois pôde-se ouvir passos dentro da velha cabaninha, um barulho de madeira
rangendo que continuou até que a porta foi aberta. De lá, saiu um homem alto,
forte, cabelos e barbas rasteiras e grisalhas, um olhar assustador, ameaçador,
parecia estar zangado com algo, e assim permaneceu até que viu o rosto de meu
pai. Depois disso, o enorme homem abriu um sorriso.”
“- Meu caro irmão – disse o homem ao estender
a mão em cumprimento – que honra ter a sua visita!”
“- Também me sinto honrado em vê-lo, caro
irmão – disse meu pai respondendo ao cumprimento com um aperto de mão – acredito
que esteja bem, nunca mais me procurou.”
“- Ah sim, para quem considera bom passar
onze anos em um pântano. – disse o homem com certo tom irônico e uma expressão
de descontentamento.”
“- Te dei chances para morar comigo, desperdiçou
todas! – disse meu pai com olhos fixos no homem.”
“- Pois bem, falemos disso noutra ocasião –
disse o homem com os olhos fixos em mim – Vejo que trouxe o Dave consigo.”
“- Ah, mas que indelicadeza essa minha –
então meu pai me puxou pelo braço e continuou – Esse é Christopher Donavan,
Dave está muito mais forte que isso.”
“Então o homem me olhou de cima em baixo e
tirou suas conclusões sobre mim, mas deixou-as guardadas para si.”
“- Jovem rapaz! – disse-me e estendeu a mão –
Eu sou Luke Donavan, irmão mais velho de seu pai.”
“O estranho homem tinha realmente certa
semelhança com meu pai, eu nem precisava ter desconfianças. A mesma rudez na
voz, a mesma mania de piscar o olho esquerdo sempre que termina de falar algo,
eram irmãos, ligados por um forte laço, isso era perceptível por causa do jeito
que falavam um com o outro, mas meu pai sequer falara dele em casa, eu mesmo,
nem sabia de sua existência. Pelo visto, não pareciam ter alguma diferença
muito grave que os afastaram.”
“- É um prazer conhecer um familiar tão
próximo. – falei ao responder ao cumprimento do meu tio que acabara de
conhecer.”
“- Um pouco frio, sem muitos sentimentos.
Vejo que herdou isso do pai – disse meu tio ao dar um abraço em meu pai – esse
seu pai passa onze anos sem ver um irmão, e quando eles se reencontram ele não
lhe dá nem um abraço.”
“Meu pai respondeu ao abraço e finalmente
fomos convidados a entrar na cabaninha de madeira gasta, eles se sentaram numa
grande pedra lisa que ficava no meio da cabana, eu apenas fiquei de olho em
tudo, observando da porta em que me escorei. Ficaram lá durante horas, nunca
pude imaginar que fossem demorar tanto conversando sobre coisas completamente
inúteis.”
“Enquanto falavam tanto, eu ficava a observar
todo o casebre, era pobre, muito simples, quase não tinha móveis e tinha um
terrível cheiro de podre, talvez fosse pelas doninhas mortas no canto da sala –
se bem que nem sabia se era mesmo uma sala, os móveis eram tão poucos que nem
dava para diferenciar os cômodos do casebre – ou então algo ainda pior e mais
fedorento que estava trancafiado em baixo de um alçapão.”
“Meu pai e seu irmão ainda falavam. Falaram
sobre plantas e diferentes tipos de pássaros, falaram também de feitiçaria e alquimia,
reclamaram do Conselho Mundial de Ordem, falaram do passado, falaram de outras
coisas que nem me lembro, e tornaram a reclamar do Conselho. Quando finalmente
se levantaram, eles continuaram a falar, como se o assunto jamais fosse ter
fim, tenho pena de quem tentasse interrompê-los, eu mesmo não arrisquei, mas
pelo menos estávamos indo embora, era notável que sim.”
“- Muito bem, lembro-me que gostava muito dos
albatrozes. – disse Luke Donavan.”
“- Ah, e sua memória não falha, ainda me vejo
fascinado, aquelas belas aves do Pacífico Norte sabem me encantar. – disse meu
pai, olhou seu relógio de bolso e continuou – albatrozes tomam meu tempo, nem
percebi que a madrugada já está quase derrubando a noite, e já com hora
avançada eu receio que tenha que ir.”
“- É uma pena, o tempo pode, às vezes, ser um
aliado, mas o problema é que ele nunca para! – disse Luke Donavan.”
“- Mas não precisa se lamentar. Você virá
comigo. – disse meu pai sério.”
“- Você sabe que Lindsay nunca gostou de mim,
meu caro irmão e, talvez eu tenha que arrumar umas coisas, talvez eu receba
mais visitas... – disse Luke Donavan, andando de costa, meio atrapalhado.”
“- Sei bem – meu pai falava e caminhava lentamente
até a porta – mas Lindsay não se importará, e tenho certeza que não espera uma
visita, não via um rosto conhecido há onze anos, sei que estou certo disso –
disse meu pai entregando uns papéis rabiscados ao seu irmão – hoje temos algo a
fazer, posso garantir que já descobriu do que estou falando, e sabe que
precisamos da sua ajuda.”
“Seria um tipo de código entre irmãos? Do que
estariam falando? Eu apenas acompanhei o assunto e fui tirando minhas
conclusões.”
“- Por Carter! Esse mundo vai de mal a pior!
– disse Luke Donavan com um olhar espantado – Mas nem tudo está perdido, eu
juro que a protegi bem – acrescentou olhando para a grande pedra lisa do centro
do casebre – Ninguém se atreveria a passar por um de meus portais! Quem lhe deu
isso? – perguntou.”
“- Creio que ficou impressionado, – disse meu
pai entregando ainda mais folhas ao seu irmão – espero que tenha se
impressionado, espero mesmo! Ganhei de um estranho que usava um capuz negro,
ele disse que o Mundo Vampiro corria perigo. Luke, meu irmão, se você não
souber traduzir pode ser tarde. – completou.”
“Tendo dito isso, meu pai andou de volta em
direção da grande pedra lisa e depois voltou a falar. – Deveríamos levar esse
artefato que você protege para longe daqui! – disse meu pai.”
“- Talvez não, – disse Luke Donavan ao pegar
e analisar o papel com rabiscos estranhos – meu caro irmão, apenas você e agora
o jovem Christopher que sabem onde me habito. Aqui é tão seguro quanto o
Conselho Mundial de Ordem, é um lugar no meio do nada! Não vou tirar nada
daqui! – continuou se alterando de calmo para nervoso.”
“- Não se exalte, tenho certeza de que você
será encontrado. O Conselho tem seu registro, você ainda é um oficial, eles
estão vendo cada um de seus movimentos, provavelmente sabem onde se esconde, e
sempre há um corrupto entre eles, isso posso lhe afirmar! Sempre há! – disse
meu pai finalmente saindo da cabana e me puxando pelo braço.”
“- Eu não concordo muito com suas idéias, pra
ser mais justo, nunca concordei, mas às vezes preciso te deixar agir e ver onde
vai dar. Espero que saiba o que está fazendo meu irmão. – disse Luke Donavan ao
ir pro meio da sua cabana e arrastar a grande pedra lisa. A pedra cobria o que
seria uma espécie de portal fixo ao chão, Luke Donavan se ajoelhou, passaram
primeiras as suas mãos no meio do portal, na mesma hora, uma luz brilhante
reluziu sobre meus olhos ofuscando minha visão. Quando pude voltar a ver, Luke
Donavan já estava empurrando a pedra de volta ao seu lugar, em seguida pegou um
pequeno baú de prata, com desenhos estranhos. Este foi o primeiro baú sem
fechadura que já vi em toda minha vida, era visivelmente impossível de se
abrir. O seu conteúdo, com certeza era algo de grande importância.”
“- Do que vocês tanto falam? – quebrei meu
silêncio com essa pergunta.”
“- Não é assunto da sua época – riu meu pai –
não precisa se preocupar, não vai lhe afetar.”
“- Talvez ele precisasse de uma resposta um
pouco mais direta e objetiva. – disse Luke Donavan.”
“- Mas você não conhece esse garoto, quando resolve
fazer perguntas, não costuma parar. – disse meu pai olhando fixamente para mim.”
“Então Luke Donavan pegou três enormes
correntes de prata, e mais três enormes cadeados e disse, – Pois bem, espero
que da próxima deixe o garoto em casa já que não vai dizer nada a ele. Agora é
melhor irmos, está ficando meio tarde, Lindsay vai ficar uma fera com você.”
“Fiquei com os olhos fixos no pântano escuro
em que me encontrava, enquanto o anfitrião trancava sua moradia, depois de
feito, tomamos o caminho de volta para casa em meio às poças lamacentas, e
enquanto o fazíamos não houve um assunto interessante o suficiente para que eu
me lembre. O que houve de diferente foram as nuvens que se escureceram avisando
que logo a chuva viria então nos apressamos para chegarmos ao nosso destino
antes que ela caísse.”
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