segunda-feira, 9 de junho de 2014

Homens estranhos na Floresta.



“Quando chegamos a casa não tivemos uma recepção calorosa, embora Johnny estivesse satisfeito com a chegada do meu pai – obviamente imaginava um belo presente –, mas foi frustrado quando viu que meu pai não lhe trouxera nada de interessante – uma simples adaga de prata, que parecia até mesmo um pouco velha.”
  “Luke Donavan se encontrava pálido, com certa inquietude, talvez estivesse com um pouco de desconforto em ter que ver a esposa de seu irmão. Eu não compreendia, não conseguia imaginar um motivo, porque minha mãe não gostava do irmão de seu marido? O que acontecera de tão grave?”
  “Eu apenas me sentei e fiquei recordando daquela cena estranha, daquele brilho ofuscante, daquele baú estranho. Assim finalizei minha noite e, me preparei para a chegada do dia, em pleno sol eu não poderia sair então eu precisava de alguma distração, e a melhor ideia que veio em minha mente, foi que, eu deveria observar cada passo de Luke Donavan, pois eu estava prestes a testemunhar algo impressionante, dos tempos de glórias das batalhas do meu pai.”
  “Luke Donavan passou o dia em um quarto, pude ver discretamente – escondido, para ser sincero – que ele observava papéis e tentava decifrar alguns textos escritos em uma língua estranha que se parecia com o latim, mas não se tratava do mesmo, sou um bom leitor e entendedor do latim, e não consegui traduzir sequer uma palavra. Os textos hieróglifos pra mim pareciam ser um mapa para meu tio, Luke Donavan, que depois de analisar cada papel começou a desenhar algo que provavelmente seria um. Passei a tarde toda assim. Eu estava escondido debaixo de um armário que ficava no mesmo quarto em que Luke Donavan estudava, e quando a noite chegou meu pai se juntou a ele.”
  “- Descobriu algo? – perguntou meu pai ao entrar no pequeno quarto.”
  “- Descobri – disse Luke Donavan ao mostrar o enorme desenho que estava fazendo em papéis grossos – posso lhe revelar os segredos mesmo na presença de seu filho?”
  “Mal pude acreditar que eu fora descoberto, sendo que me escondi tão bem.”
  “- Meu filho? – se espantou meu pai.”
  “- Sim, ele passou toda a tarde me observando debaixo do armário no canto esquerdo do quarto. – respondeu Luke Donavan.”
  “- Nem acredito! Só podia ser o Christopher! – disse ele, já sabendo que seria eu.”
  “Então eu saí debaixo do armário, provavelmente fiquei com uma expressão de espanto muito engraçada, já que arranquei gargalhadas de meu pai e de meu tio.”
  “- Realmente pensou que não seria descoberto? – perguntou meu pai olhando fixamente em meus olhos espantados.”
  “- Eu procurava minha adaga de prata – falei firmemente, olhando fixamente para os olhos do meu pai, sem gaguejar, para que não houvesse desconfiança –, pensei que talvez pudesse ter caído debaixo do armário, quando fui surpreendido com a chegada de Luke Donavan, aproveitei que já estava debaixo do armário e lá fiquei ele estava com uma expressão muito séria e eu não queria interrompê-lo.”
  “- Foi uma boa desculpa – disse meu pai percebendo minha mentira – agora se retire do quarto e diga à sua mãe que vou sair.”
  “- Como quiser, mas antes de ir não posso deixar de perguntar – disse eu, muito curioso –, para onde vocês vão?”
  “- Como eu disse da última vez, não é assunto de seu tempo, agora nos dê licença e diga para sua mãe que vou sair junto de meu irmão. – disse meu pai calmamente.”
  “Fiz o que meu pai me pediu, e resolvi ir olhar de longe para onde eles iam, meu pai não costumava sair assim, mas quando saia, ele não dispensava minha presença.”
  “- Meu pai está fazendo algo de muito errado, ou algo de muito certo, mas ele não quer nos contar. – disse eu ao me encontrar com Dave em um dos corredores da casa.”
  “- Talvez não seja nada demais – disse Dave sem olhar para mim –, ele acabou de se reencontrar com um irmão que não via há anos. Deve estar aproveitando o tempo com conversas inúteis sobre albatrozes.”
  “- Acho que não existe um livro hieróglifo que conte a história desses pássaros – disse eu. O que tanto procura no telhado? – continuei ao ver que Dave não me dava atenção, e só olhava para o telhado.”
  “- Eu estou procurando saber – disse Dave ainda olhando para o telhado – onde deixei meu livro sobre as plantas venenosas. Eu devo ter esquecido em algum lugar lá em cima.”
  “- Porque lia um livro no telhado? – perguntei sem entender.”
  “- Ora, essas vigas são enormes e bem largas – disse Dave finalmente fixando seu olhar em mim – não é nenhum incomodo se sentar nelas para ler um bom livro, e quem poderia me incomodar no telhado? É bom lugar para ficar sozinho.”
  “- Eu não tento mais entender suas ações Dave. – disse eu espantado com uma explicação tão estranha – Mas se tem algo que eu queira saber é o porquê você lê tantos livros sobre plantas, já aprendeu algo de importante? – perguntei.”
  “- Ah, claro que sim – disse Dave olhando novamente para o telhado – descobri que em mil oitocentos e setenta e nove um Pacífico, Aldrich Moriant, descobriu uma fórmula a base de Aloe Vera que podia impedir as queimaduras solares, ele fez vários testes e morreu queimado depois de alguns anos – enquanto fazia um teste –, mas eu fico a pensar, talvez se essa fórmula fosse melhorada, era bem possível que vampiros pudessem andar tranquilamente durante o dia.”
  “- Acho pouco provável – disse eu, contando que era completamente incrédulo da inteligência dos vampiros – já que nós vampiros, nascemos com certa dificuldade de entender as coisas, dizendo em palavras diretas e grosseiras, somos burros, meu caro amigo. – continuava falando enquanto caminhava lentamente até uma janela, quando olhei pelo vidro vi uma luz em meio das árvores brilhando fracamente há umas duas milhas de distância, logo sugeri que fosse meu pai, e seu irmão, ainda caminhando ao seu destino desconhecido por mim. Resolvi então, alertar ao Dave. – Veja! – disse eu apontando para a luz distante – Provavelmente seja meu pai, e seu irmão, é provável que possamos alcançá-los! – continuei.”
  “- É sim – disse Dave olhando para fora –, mas o que vai fazer pra sair daqui sozinho? – perguntou.”
  “- Não estou pensando em ir sozinho – disse eu olhando para o Dave – você poderia me acompanhar, quando voltarmos, subo nas vigas e te ajudo procurar seu livro estúpido!”
  “Dave era estranho, tinha atitudes estranhas, às vezes ele falava umas coisas tão fora de sentido que nem ele conseguia repetir, mas era facilmente persuadido.”
  “- Feito! – disse ele – Vamos agora mesmo, ou os perderemos!”
  “Então fomos até o arsenal dos fundos o mais depressa possível.”
  “- E devemos mesmo levar espadas? – perguntou Dave bem baixinho, como se alguém nos observasse.”
  “- Ora, não sabemos o que meu pai e seu irmão querem – disse eu pegando uma enorme espada de prata – é melhor irmos bem munidos contra qualquer contratempo.”
  “- Você sequer sabe usar uma espada? – perguntou Dave.”
  “- Não... – disse eu desanimado – Mas você sabe muito bem! – completei com animação retomada no semblante.”
  “Finalmente partimos, e tomamos caminho em meio às árvores. A luz que outrora brilhava fracamente, agora estava ainda mais fraca, e a cada minuto ela se distanciava ainda mais. Chamei Dave para corrermos, ou perderíamos toda a ação que eu cogitava que fosse acontecer. Enquanto percorríamos o caminho, Dave estava apreensivo, com os olhos bem arregalados e não tirava a espada das mãos. Eu estava bem alerta, olhando por todos os lados, e me assustava com todo animal que passava ao nosso lado, por menor que fosse. Eu estava com muito medo, mas o sentido de aventura me fazia prosseguir, penso que nem mesmo a mais assustadora das coisas poderia me parar naquele momento. E enfim, o primeiro ato aconteceu.”
  “- Veja! – exclamou Dave – a luz parou, não há mais ninguém em seu manuseio.”
  “- É uma tocha – disse eu – eles pararam ali, vamos nos apressar, não estamos muito longe.”
  “Os que manuseavam a tocha estavam parados, fazendo alguma coisa, e eu não demoraria a descobrir, eles estavam a uns mil passos dali, mas contando que corríamos tão depressa, talvez chegássemos a menos de dez minutos. Mas então, o segundo ato aconteceu.”
  “- A tocha se apagou! – exclamei com surpresa.”
  “- E agora? – perguntou Dave – O que devemos fazer?”
  “- Seguir em frente na escuridão, somos criaturas noturnas! – disse eu entusiasmado.”
  “Seguimos em frente, apenas com a iluminação do luar, que não estava muito boa, contando que havia começado uma fraca neblina que mais tarde poderia se tornar intensa. Enquanto fazíamos o caminho – dessa vez lentamente devido a falta de orientação – ouvimos passos em meio à mata.”
  “- Eles estão aqui. – disse eu, quase em cochicho – não devemos deixar que nos descubram nossa presença.”
  “- Aposto que já descobriram – disse Dave em sussurros – por isso apagaram a tocha.”
  “- Por aqui – disse eu, no mesmo momento que corri e me escondi atrás de uma grande árvore – abaixe-se! – exclamei em sussurros.”
  “Dave seguiu minhas instruções, e ficamos bem quietos, quase imóveis. O som da noite já assombrava a floresta, já se podia ouvir o chocalho da cascavel, o som repentino de asas – provavelmente de morcegos –, e como se já não estivesse difícil enxergar algo, a neblina aumentara, mas foi claro como a luz do maléfico sol, que vi um homem – se é que era mesmo um homem – enorme, provavelmente uns três metros de altura – sem sapatos –, à noite e a neblina me impediam de ver perfeitamente, mas pude perceber que o homem enorme, tinha também uma barba proporcional ao seu tamanho, e estava munido de um enorme porrete rodeado de espinhos – provavelmente de prata –, roupas de couro, típicas de um guerreiro.”
  “Dave empunhou sua espada, depois de feito, voltou a ficar imóvel. Eu apenas observei o enorme homem com tanto espanto e admiração ao mesmo tempo, que quase criei uma nova filosofia. O medo se apossou de mim quando vi que aquele homem enorme e armado havia parado de andar, bem na nossa frente, por sorte estava de costa, mas qualquer barulho suspeito podia fazer com que ele virasse, e se as suas intenções não fossem boas, provavelmente morreríamos, afinal, o que um homem tão enorme faria armado em uma floresta?”
  “Já estava algo estranho e absurdo, meu pai sai com seu irmão, Luke Donavan, para um lugar desconhecido, do qual preferem esconder, homem estranho e enorme bem no meio da floresta, não eram coisas que aconteciam sempre, mas o pior ainda estava por vir, outro homem – bem menor que o gigante parado em nossa frente – surgiu em meio às árvores.”
  “- Seu tolo – exclamou em sussurros o homem que surgira – você os perdeu! – provavelmente não queria ser descoberto, contando que continuava a sussurrar.”
  “O homem enorme se virou, e foi como se ele não tivesse nos visto, mas estávamos bem na frente dele, como pode não ter nos visto? Seria ele cego? E mudo? Já que não respondia o outro homem que parecia mais ser seu dono.”
  “- Espero que não tenha perdido o rastro – disse o homem menor, dessa vez em voz mais alta, eles estavam bem atrás da árvore em que estávamos escondidos – tudo ficou mais complicado depois que ouviram o barulho escandaloso de seus enormes pés! Se não fosse por você, eles não teriam apagado a tocha e teríamos uma excelente orientação. – completou.”
  “O homem continuava a falar, e o gigante mudo. Dave me fitou nos olhos e pude perceber suas intenções, ele queria sair dali, e já que o homem menor estava ocupado demais falando, e o gigante não havia nos percebido, pensamos que seria fácil sair dali. Eu fui o primeiro a levantar, e comecei a caminhar lentamente, Dave se levantou calmamente e veio ao meu encontro, e quando, finalmente, começamos a caminhar juntos, Dave tropeçou em uma raiz e, desequilibrado, deixou sua espada cair sobre uma pedra, o barulho foi alto, já que a floresta estava tão silenciosa. Corremos para trás de outra árvore e lá ficamos.”
  “- Mas o que foi isso? – disse o homem menor, pelo menos era o que indicava o timbre da voz, voz que eu já havia decorado.”
  “Pensamos em correr, mas no mesmo quarto de segundos, o gigante arrancou com uma extrema facilidade a árvore que nos guardava. Eu corri para um lado, Dave para outro, e isso foi o pior que fizemos, tínhamos que ficar juntos, mas fomos a direções distintas, meu desespero veio quando olhei para trás e vi, o gigante estava me seguindo. Ele era lento, mas era tão enorme que um passo dele era o mesmo que cinco, talvez dez, dos meus, fazia um estrondo sempre que apoiava um pé sobre o chão, enquanto eu desviava das árvores que me atrapalhavam, ele arrancava, com facilidade, as que surgiam em seu caminho.”
  “Eu ainda não havia reconhecido em qual direção estava correndo, mas percebi que a mata fechada estava acabando, já que as árvores estavam cada vez menor, mas mudar de direção me faria perder muito tempo, e o gigante estava bufando na minha nuca de tão perto que estava. Cheguei, enfim, a uma área, que tinha uma grama rasteira, olhei para trás e não vi o gigante, mas antes que pudesse começar a me aliviar, ele surgiu, jogando árvores para cima, e eu continuei a correr, logo a frente encontraria um riacho de águas puras, a plantação mais baixa e o solo um pouco mais úmido me denunciaram isso. O riacho poderia ser minha salvação, na água, o gigante seria muito mais lento, e seu tamanho só lhe atrapalharia, mas antes que eu pudesse chegar ao riacho, olhei mais uma vez para trás, e vi que o gigante dera um salto em minha direção, ele mirou bem sua arma em mim, e me acertaria em questão de segundos, se não fosse por alguém ter-me desviado do monstro.”
  “- O que faz aqui? – gritou uma voz familiar.”

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